quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Entrevista com: Helder Herik

No lançamento do livro “As Plantas Crescem Latindo”, 2009 – SESC - Garanhuns

Entrevistado por minhas Excelentes alunas: Camilla Montanha e Fernanda Jófili (eu as obriguei a fazer a entrevista e elas toparam, desde que ganhassem ponto na média)

“Sou um homem do século passado.”

C.M & F.J: Como foi a experiência de escrever o livro?

Helder Herik: Esse livro foi escrito em 2002, na época que eu ainda era um jovem universitário. Eu tinha a preocupação de observar o mundo e nessa preocupação, percebi que os jovens, assim como vocês, têm uma necessidade de se expressar com poucas palavras. Isto porque o mundo é dinâmico, rápido, veloz. Então, não se tem mais aquele tempo de outrora, que era o tempo dos nossos avós. Um tempo onde se conversava mais porque parecia haver mais tempo. Logo a mensagem do livro As Plantas Crescem Latindo é dinâmica e o suporte dessa informação qual é senão o MSN e mais recentemente Twitter. Mas nessa época esses dois não estavam tão propagados no Brasil. Então na época o sucesso eram os torpedos de SMS. Eu resolvi fazer um livro com uma linguagem sintética, uma linguagem resumida, uma linguagem precisa; que nada mais é que a linguagem que o jovem utiliza hoje.

C.M & F.J: Este é o 1º livro publicado?

Helder Herik: Publicado não, mas foi o primeiro livro que escrevi, isto no ano de 2002, no mesmo ano, escrevi outro livro chamado amorte, publicado no ano passado, e agora, As Plantas Crescem Latindo, em 2009. Então estou me livrando desses 2 livros, que foram os primeiros. Tenho mais alguns livros terminados e outros por terminar. Nos próximos anos vou mostrar essas outras obras. Espero que o público seja afetivo aos que virão pela frente

C.M & F.J: Por que o nome do livro “As Plantas Crescem Latindo” ?

Helder Herik: Esse livro vem muito da concepção infantil, é um dos vários livros que escreverei sobre a minha infância, sobre o meu mundo mitológico. Além do livro ter uma linguagem curta, que faz um link com a ‘linguagem da atualidade’, ele também tem uma linguagem fácil, principalmente na última parte, que se chama “Desenterrando Sapos”. Eu quis colocar o nome de As Plantas Crescem Latindo, porque, e aí eu acho que vocês não vão acreditar, mas as plantas lá em casa latiam, juro pela minha alma que elas latiam igualzinho um cão perdigueiro. Elas latiam porque queriam deixar de ser simples mudinhas. Elas só não latiam para a minha Avó. Elas respeitavam a boa velha. Então me veio a ideia na cabeça de homenagear aquelas plantas da minha infância. Foi aí que surgiu ‘As Plantas Crescem Latindo’.

C.M & F.J: Tem alguma poesia que você mais goste ou mais se identifique?

Helder Herik: Tem sim, uma poesia chamada “Revoada”, que diz assim: “as mãos que dão tchaus, são pássaros que erguem voos”; na verdade, é um poema bem visual, se você não visualizar as palavras é bem provável que o poema não funcione. Mas se você visualizar o aceno do tchau, verá ele parece um pássaro batendo as asas. Quando o pássaro bate as asas, obviamente, ele quer ir a algum lugar; quando damos o nosso tchau, também estamos querendo ir a algum lugar. E eu tentei fazer essa analogia visual do tchau como se fosse um pássaro erguendo o voo.

C.M & F.J: Algumas poesias têm um ponto de vista ‘sublime’, como ‘Brazil’, escrito até com “z”.

Helder Herik: Essa poesia, “Brazil”, mostra a visão imperialista, a visão dominadora e dogmática dos Estados Unidos. Porque, na época que eu fiz esse livro, não era o governo Obama de agora, era o governo do George Bush. Este foi o governo mais odiado de um presidente americano em todos os tempos. Uma verdadeira catástrofe. Então resolvi colocar o desdém do americano ou dos poderes americanos com relação ao Brasil, então o Brasil é escrito com “z” para dar aquela ideia de ‘internacional’, e o poema diz “Brazil: país da América do Sul, lá se puxa pouco a descarga”. Tem uma visão de criticar os nossos políticos, que defecam demais; e as fezes rolam soltas; é uma por cima da outra, não se limpam e nem nada.

C.M & F.J: Com relação ao estilo, é Modernismo, certo?

Helder Herik: Sim, mas quando eu morrer talvez digam outra coisa. (Risos)

C.M & F.J: Mas tem algumas questões como o romantismo, como a fase de transição da infância, à adolescência até a fase adulta. Você confirma isso?

Helder Herik: Sim, interessante que você pegou algo da poesia. Esse livro mostra que o homem ficou adulto, o homem agora formou-se e exerce uma profissão. O homem agora perdeu seus cabelos e a sua inocência ficou no século passado. É uma forma de proteger-se é relembrar da infância, quando era acarinhado, debaixo das lanranjeiros e das goiabeiras.

C.M & F.J: Qual a mensagem final do livro?

Helder Herik: Com esse livro quero deixar minha marca no mundo, ficar registrado. Talvez amanhã, quando estiver mais velho eu pense diferente, mas agora eu penso desse jeito. Eu espero que os leitores gostem do livro. (Pessoas chegando para o lançamento) quantos leitores, hein? Veja só, olhe como vem. Vem logo um enxame, vem logo de tuia, porque é assim que o Brasil tem que ser, um enxame de leitores (risos). A mensagem final do livro é: a poesia ainda vale à pena. Mesmo que o pão seja caro e a liberdade pequena, como disse o Ferreira Gullar.

sábado, 28 de novembro de 2009

Lançamento do livro: AS PLANTAS CRESCEM LATINDO. SESC - Garanhuns, 24 de novembro de 2009.

FOTOS: Pedro Henrique de Melo Teixeira






























domingo, 22 de novembro de 2009

domingo, 15 de novembro de 2009


A MORTE DA VELHA PALMIRA

Naquele tempo os defuntos só eram enterrados quando começavam a feder. Quando a catingava subia é que se tampava o caixão e se preparava o cortejo até o cemitério. Os parentes e os vizinhos vestiam preto da cabeça aos pés. Era o luto. Agora essa história de preto não pega mais. A pessoa vem ao velório como quer. Vem mesmo é por consideração ao morto, isso é que importa, oras bolas.

Mas, deixem eu falar do Fedor, não me atrapalhem. Pois bem, defunto só era enterrado quando fedesse. Antes disso qualquer cheirozinho era desconsiderado, porque poderia ser suvaqueira ou pum de gente viva; que defunto não se dá a isso. Tanta gente junta é natural que os cheiros se misturem. O suor azedo de um com o pum de outro acabam se juntando e formando um cheiro catingoso e cortante, pior do que cavalo suado e pedra de carbureto.

Acho um grande desrespeito soltar pum em velório, mesmo que o defunto não sinta, mesmo que seja desses silenciosos, que são os que mais fazem estragos. Porque é assim: um defunto carece de mais respeito do que um vivo. Um defunto é alguém que já perdeu tudo e está na total das desgraças. Vai para debaixo da terra porque virou porcaria. Ninguém conserva em casa um defunto, não é mesmo? Quem aqui já ouviu falar em defunto de estimação? Um passarinho, um gato e até um cachorro a gente enterra no quintal de casa, no quintal do vizinho; pra servir de adubo as hortaliças, mas e um defunto nosso? Ora, um defunto nosso se enterra longe, mesmo que ele tenha a nossa cara, não é mesmo? Viram como o filho é cara da Velha? Que sensação estranha deve ser enterrar uma criatura que tenha a nossa cara, meu Deus! Pior deve ser um pai enterrar um filho, a dor deve ser dobrada. Você ali, enterrando um menino que é a sua cara escritinha quando você tinha aquela idade. Deve ser como enterrar a própria pessoa , a própria infância.

Semana passada eu estava assistindo um filme. O cara era um caçador e tinha pendurado em sua sala um monte de cabeças de bichos. Tinha rinoceronte, leão, pantera, zebra e um bocado mais. Mandou empalhar tudo. Empalhar? Ora, empalhar é depois do bicho morto você cortar a cabeça, tirar as carnes, miolos, nervos e preencher o vazio com palhas. Certamente o caçador comeu a carne e deixou a cabeça como trófel. Já pensou a cabeça da velha Palmira empalhada e o resto do corpo servindo de comida pro filho. O infeliz abrindo a geladeira, descongelando a carne e passando a faca na bunda murcha da Velha. Essa foi boa hein? Digam lá se não foi? Agora... Se bem que o que todo mundo sabe é que o filho servia de marido a Velha Palmira. Se cobriam com o mesmo cobertor. Vejam mesmo o tamanho da foleragem! Mas deixemos isso pra lá que foleragem não é assunto pra criança. De jeito nenhum. Não conto e não conto. Onde era que eu estava mesmo? Isto, a desgraça de um morto, brigado por lembrar. Ora essa, o morto merece todo o respeito do mundo porque o pobre, que já perdeu tudo, como se não bastasse, ainda está sob a tensão de ir pro inferno. Já pensou além de morto o cara ir direto pro inferno? Ave Maria que me proteja. Porque no inferno é assim: você chega e vê que tudo é vermelho de tão quente. Você chega lá e começa a pegar fogo na hora. Fica queimando a vida toda porque quando o fogo vai se apagando vem o diabo e joga gasolina em cima de você. Deus que me livre e guarde dessa vida.

Eu tinha um tio que dizia ter conhecido o diabo. O homem tinha o juízo fraco. Os parentes diziam que na hora do parto um galo havia cantado. Era o mau agouro. Sinal de aleijo. O povo pensando que ele iria ficar com um braço torto, uma perna, mas ele se aleijou foi da cabeça, tinha até uma baixada e por isso vivia de chapéu. “O diabo sempre aparece de meio dia pra tarde, que é a hora mais quente”, dizia o Tio Ricardo. “Tem o corpo todo latejando de brasa e os dois chifres soltando fumaça, quando ele se contraria os chifres pegam fogo”. Tio Ricardo morreu de uma febre que teve no inverno. De uma hora pra outro o homem bateu as botas. Ele ardendo de febre e dizendo que o diabo tinha entrado no corpo, queimando os ossos e as carnes. Por sorte que era novo, nem tinha construído família ainda. Porque aí seria mais desgostoso saber que o diabo tinha levado embora o marido, o pai. Essas coisas que o tempo trás. Ainda dizem que o diabo era um anjo de Deus que se revoltou com mania de grandeza. Queria ser dono do céu e tudo. Mas eu não acredito nisso não. O diabo sempre foi diabo, nunca foi anjo não. Na minha cabeça é assim: na mesma época que Deus fez a terra o diabo fez o inferno. Deus quer o bem, o diabo quer o mal. Deus nos livra de um acidente, o diabo coloca outro mais a frente. E os dois vão pegar essa queda de braço até o fim. Ou tomara que até o não fim. O fim do nunca.

A Velha Palmira tinha horas que trazia Deus no coração. Era quase bonita. Varria a frente da casa, ajeitava o rego pra o esgoto correr em paz. Uma santa. Depois vinham os meninos da José Bonifácio e pisavam naquilo tudo. Quando não eram eles, eram as galinhas caçando gôgos. Nessas horas a velha se manifestava, saia com a vassoura na mão, parecia uma bruxa vinda dos infernos. Chamava tudo que era nome feio, não respeitava nem os crentes descendo da Assembléia, nem nada. Era uma metralhadora. Pois aquilo era o diabo possuindo ela. Pode ficar certo disto. Quando estava com a vassoura baixa tinha Deus no coração, quando empunhava a vassoura, igual uma espada, tinha o diabo nas veias.

Agora me digam uma coisa, esse filho dela, o que é que vai ser dele? Que eu saiba esse povo aí não tinha parente e nem amizade com ninguém. Eram sozinhos nessa casa escura. Nunca vi o filho dela trazer em casa uma namorada. Tenho até raiva desse nojento quando penso o que ele fazia com a mãe. Tenho certeza que era por insistência dele que a pobre cedia. Cansei de ver ele de botica de olho pra cima dessas meninas quem vem do João da Mata¹, depois pegava a Velha pelo braço e trancava a porta.

Um dia desses eu o peguei oferecendo cigarro a Gracinha, essa daí é outra safada que não se emenda. Pois o bicho pegou o cigarro, pôs na boca da menina, acendeu, alisou o queixo dela e deu um beliscão na barriga. Ela só achando graça e soltando fumaça na cara dele. Quando a Velha Palmira apareceu os dois ficaram errados, sem saber onde por a cara. A velha ficou uma arara, até dedo no focinho da menina colocou.

A Gracinha está perdida. Filho criado sem acocho de pai só dá nisso. Vocês têm seus pais, quem não têm pai ainda tem mãe e você que já não tem mais pai nem mãe se agarre com os avós. Porque eu vou dizer uma coisa a vocês: quando eu perdi meu pai eu fiquei cego nesse mundo. Mas foi cego mesmo de ver as pessoa e trombar na barriga delas. Emagreci feito um cancão, sai do colégio e fiquei igual uma folha seca, sem saber pra onde vai. Minha mãe achando que eu iria ficar alesado e tudo. Se não fosse ela eu teria ficado mesmo. A mãe é a coisa mais sagrada que existe no mundo, pode ter certeza que é. Por isso que quem dá na mãe corri bicho. Souberam da história do padeiro? Pois então, aquele ali é ruim que dói. Agora está ele aí, baleado na perna e sem freguesia. Bem feito pra ver se ele abre do olho. A mãe é a coisa mais sagrada que Deus fez e mesmo depois que ela morre, ela fica viva, aqui dentro na gente, no coração e na cabeça, nos olhos e no café que a gente toma. A mesma coisa é o filho morrendo, ele ainda fica na barriga da mãe, ora dorme e ora se revira.
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¹ escola estadual situada no Bairro da Boa Vista, em Garanhuns-PE, onde o cronista fizera sua vida escolar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

domingo, 1 de novembro de 2009

FÉLIX

O sítio Félix passava uma seca medonha. Já vinha assim um tempo: o que era verde, amarelando, o que era amarelo, amarronzando. Somente à tardinha, quando o sol se recostava no morro é que eu saia da casa e andava pela sombra das árvores, pisando as folhas secas, que estralavam, puindo-se. Era esta a diversão das minhas férias: pisar folhas secas, trucidá-las numa vingança contra a minha saída de Garanhuns. Lá havia as praças, os bares e os cinemas. Os amigos todos estavam lá. Aos sábados as meninas chegavam em grupos para as sessões do Cinema Jardim. As mais ousadas assistiam à última sessão, sentavam ao lado dos rapazes e saiam da sala ajeitando os vestidos e os sutiãs. Tudo já combinado entre nós. Tudo como se nada tivesse acontecido. Garanhuns era uma cidade aberta para o mundo, crescendo. Pululando, entre braguilhas e vestidos. O sítio Félix tinha cerca de estaca e arame farpado, tinha os engana bois¹, tinha cancela batendo no mourão. Tinha a seca. A seca na cidade era a falta d’água, se resolvia com os carroceiros. O caminhão pipa enchia as cisternas por um mês. Todo mundo tomando banho, cozinhando, lavando pratos, roupas e ainda sobrava água. A seca nos sítios era um deserto. O descampado amarelando e amarronzando. A mesma coisa que um filme de guerra. O cenário queimado e os corpos tombando. Os soldados tombando nas guerras e as reses nesses rincões.

Só mesmo a noite é que se tinha uma visão mais amena. Nessas horas todo era escuro, sem amarelo e sem marrom, só o escuro consolador. A noite trazia o estouro do vento reprimido, esfriando as paredes e o sangue do povo dali. Dentro da casa se ouvia as folhas sendo varridas, a cancela batendo no mourão e os assobios entrando pelas telhas.

***

Amanhecia.

Beirando a cancela, os homens se amontoavam. Uma rês havia caído. A muito custo lhe puseram uma estaca por baixo e a forçaram como alavanca. A rês fraca, as costelas a furar o couro, a boca petrificada. Os olhos redondos, num brilho triste, o nariz rombudo. Dilatado. Eu vendo aquela tristeza toda, aquele trabalhão de sísifo. Pensava em Garanhuns, o caminhão pipa, a braguilha que deixava abrir, os vestidos que levantava.

Um vaqueiro do sítio Mulungú ia passando e se prestou a ajudar. Cigarro de fumo a boca. A cara chupada, o chapéu de couro empretecido, a barba rala. O relógio oriente folgado no braço sem pelos. A camisa aberta até o peito, as costelas, o escapulário de Nossa Senhora. Numa fala avexada ia dando ordens. Aqueles homens tinham força para levantar cem bois. O que lhes faltava era a manha do vaqueiro do Mulungú, que sabia a hora e quando gastar a força. Assim, avexado nas ordens e nos gestos, foi tomando a frente na empreitada. Os rostos mascaravam-se em caretas. As musculaturas contorcidas. As veias inchando, pareciam cobras.

Puseram a rês de pé. Sustentava-se mal nos cambitos. A anca sorvida. O lombo num graveto. O couro fino igual uma chita. A cabeça pendendo como se recebesse má notícia e o mundo fosse um desconsolo só. O vaqueiro do Mulungú sorriu depois do feito e foi embora. “No Mulungú eles fecham o corpo com o diabo.” Disse um dos trabalhadores do Félix.

***

Aquela noite foi de pouca ventania e meu pai saiu para o alpendre. Picotava o fumo. Aninhava-o na seda, embrulhava e passavam a língua, colando os cigarros. Tragou fundo e contou os casos da seca. Muitos casos que até cheguei a pensar que eram inventados. Meu pai dava uma cuspida na fogueira e o cuspe ardia, limpava a boca na manga e falava numa entonação arrastada, como se a voz quisesse voltar para trás.

“Seca dessas nunca houve não. Nunca houve de jeito nenhum. Tem família aí fazendo sopa de mato. Sopa de palma que rende mais caldo. Já pensou isso, disputar comida com os bois? Veja mesmo que desgraceira. Em Bom Conselho mesmo estão matando tudo que é rês e salgando. Dizem que não carece lutar em vão. Cada um que sabe a sua necessidade. Cada um sabe onde o Calo lhe aperta. Agora eu é que não tenho coragem de comer cria minha. O Bicho criado pra servir, amenizando tanto a luta por aqui, dando leite, o lombo a cargas, arando ou somente vivendo por aí, pra cobrir a paisagem e alegrar nossa vista e depois eu matar minha cria. Mato nada. O diabo que mate e coma, eu mesmo não.”

Meu pai herdou o sitio Félix de meu avô Severiano. O Félix era um tapete naquela época, verdinho, verdinho, pelas fotos antigas você adivinhava a cor, e agora estava numa desgraceira daquela: amarelando, amarronzando, gretando e puindo. Tudo numa precisão de milagre. O milagre que não vinha. Rezava e rezava e ainda tinha que se rezar mais. No oratório o Padre Cícero, de cabeça branca e vestido de luto, segurava uma bíblia cheia de salmos e dizeres de Deus. Na outra mão impunha um cajado. “A bíblia para os homens e o cajado para as reses.” Foi o que o meu pai disse.

“Mandei que viesse passar um tempo comigo, agora que é recreio dos estudos, porque já é tempo de me despedir de você. Estou velho e cansado. Estou mais do que velho e cansado. Vou ficar aqui igual essa imburana. Escrevi nela o nome da finada, fiz um coração e tudo. Vou cavar um buraco ao pé da imburana e quando sentir que estou perto de morrer eu mesmo me enterro. Eu mesmo chegarei terra para cobrir o corpo e evitar que os urubus me arranquem um pedaço. Quero morrer inteiro. Quero chegar inteiro no céu. Não faça essa cara menino, você já é um homem, sei do que anda fazendo em Garanhuns. Estou bem informado dos namoros. Puxou ao velho. É coisa de família, teu avô também era assim: desgovernado da peia. Agora escute o que vou lhe dizer: eu morrendo num dia, no outro venda isso e termine seus estudos, faça carreira, tenha família e tudo mais. Só peço que espere eu fechar os olhos. Deixe eu dormir primeiro junto da finada. Depois venda logo a terra senão a coisa desvaloriza. Senão o sobrenome Félix não valerá um vintém.”

***

Pela manhã a rês amanhecera caída. Os homens correram para acudir à coitada.

“Essa nem chegou a dar leite e o diabo do cão já levou.”

A rês dura. Os olhos abertos, sem brilho. As moscas entrando no nariz rombudo. Tomando o rabo tísico. Caíra sem ter quem lhe valesse. Devia ter passado a madrugada agonizando, no limite entre viver e morrer. Devia ter morrido com a dor lhe entalando. Os ossos lhe entalando embaixo da imburana.

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¹Parte da cerca de arame farpado onde se encontra uma abertura desenhada a forma da letra 'C', que se pode contornar por um homem, chegando de um lado a outro com relativa facilidade, sendo preciso apenas atenção para a pele e a roupa não rasgar nas farpas da cerca. Já o animal, o boi a ser mais preciso porque uma galinha, um gato e um cachorro de pequeno porte consegue muito bem utilizar esse desvio, pois como sabemos: são animais ágeis e inteligentes ou inteligentes porque justamente são ágeis, estes sim, podem passar por ali, mas não o boi com sua vida em câmera lenta e seu corpão para abate.

domingo, 25 de outubro de 2009



SUGIRA ALGO QUE APERFEIÇOE O QUE EU JÁ TINHA FEITO

Mas suponhamos que houvesse uma segunda época da criação do mundo. Se fosse possível passar uma borracha em tudo que está aí e depois que tudo ficasse branco me fosse dado à oportunidade de sugerir alguma coisa ao criador. “Sugira algo que aperfeiçoe o que eu já tinha feito”. Depois do susto, porque esta voz viria forte a semelhança dos trovões de dezembro, eu sugeriria um melhor uso da pele.

Óbvio que lhe teceria elogios pelo invento: um tecido costurado direto no corpo, com elástico embutido; que nos permite crescer para cima e para os lados se ajustando a isso sem nos apertar e descosturar. Aliás, a costura disto é o mais completo mistério, não sabendo mais o criador onde que se dá a última ponta da costura. O ponto que geralmente recebe um nó, seguido de outro e quantos forem precisos para que daquele ponto a costura não desalinhe, esfarelando e descosendo.

Eu sugeriria ao bom criador que seguisse o exemplo do vendedor de picolé que utilizava a calça jeans, todavia, pelo lado convencional, que é este em que o bolso e a braguilha ficam escondidos. Pois sendo o picoleseiro filho do criador, e por isso dotado de sabedoria, resolveu, depois de um tempo, vestir as calças as avessas. E ficou sendo isto uma grande novidade na cidade de Santo Antônio de Garanhuns, onde as pessoas são conservadoras e vaidosas no pentear e sobretudo no vestir.

Achou ele que sendo a calça muito usada e, em consequência, muito lavada, o tecido exposto ao sol e a chuva, a tinta de muro, suor das mãos e ainda a poeira soprada, tudo isto, acumulado num dia e noutro mais, acabaria por esgarçar a roupa, que muito suja exigia muitas lavagens com esfregões de escovas (estas com cerdas duríssimas) e muito esfregar nas mãos, que mesmo se utilizando de sabão neutro ou outro sabão que perfume e limpe, teriam as mãos o seu couro carcomido, pois é sabido que algumas sujeiras só desaparecem mesmo com o friccionar das mãos, conforme pregam as antigas lavadeiras nos seus queixumes contra as máquinas de lavar. E sendo assim, pelo processo natural das coisas que se gastam com o uso, a calça jeans do vendedor de picolé teve sua cor azul desaluzada ou bufenta como diria a pessoa de mais idade. E tão branca agora, daria se a sujeira com mais facilidade, já que o branco é uma cor que se suja com a própria limpeza. Pois é aí que está o golpe de mestre do picoleseiro. Passou ele a usar a calça as avessas, conforme já dissemos aqui, e o fez pelo simples motivo deste lado conservar a cor forte, como no dia que saíra da loja. Simples a ideia que teve o vendedor de picolé. A bem da verdade uma idéia de concepção boba, de pouca reflexão e mais observação, o que os mestres universitários denominam de ‘empirismo’.

Deu-se a ideia assim: um dia fez tanto calor que a vendagem dos picolés tornara-se um fenômeno incalculável e o guardar dinheiro e dar troco acabaram por descosturar a calça. Ficando o bolso com uma parte dependurada, igual um jogador de futebol quando tem a perna fraturada. E sendo assim o picoleseiro achou por bem arrancá-lo fora, o que é muito fácil, não sendo o bolso uma perna.

E foi esta atitude, porque não dizer grosseira, que o fizera perceber que a parte interna, não sendo lavada e não levando sol, permanecia a cor natural, que é o azul forte, típico do jeans.

Pois se me fosse permitido sugerir algo, nesta nova criação do mundo, o que provaria ser o Bom Criador um governante aberto ao diálogo, sugeriria o exercício de trocar a pele de fora, de muito uso, pela de dentro, que por não estar exposta, está certamente conservada, se o seu dono não for um estragado em consumo de cigarros, refrigerantes, ketchups e outros corrosivos.

Para o exercício de troca de pele seria preciso estipular algumas ordens, nem tudo poderia ficar no livre arbítrio, pois este existindo é que existe a desordem no mundo, já dizia B. Russell. Sendo logo preciso estipular uma data para a troca, ficando estabelecido para ambos os sexos a troca-total-de-um-lado-da-pela-por-outro para aqueles que alcançassem a idade dos quarenta anos (justificando ser esta a metade de uma vida sem grandes acidentes) e permitida uma nova troca na idade dos oitenta, mas já se sabendo que esta pele não será encontrada sem uso ou semi-nova, podendo o octogenário optar pelo lado que estiver menos desgastado ou simplesmente optar por não vestir mais a pele, o que seria, convenhamos, a total nudez.